Nesta época do ano eu ia à casa de minha avó paterna buscar um grande pinheiro no qual minha mãe, que era separada de meu pai desde meus 11 meses enfeitava lindamente, mas as visitas a vó também eram regadas a muitas conversas e historias entre uma delas e que minha vó contava seguidamente era a historia de um de seus irmãos Valdemar Fernandes Reis “Marinho” que teria sido assassinado em um conflito armado no centro da cidade, próximo à pira da praça há muitos anos, esta era uma das que mais gostava, porém ela não tinha muitos detalhes, pois era muito jovem quando ocorreu. Mas ontem nas andanças pela internet encontrei um texto de um velho amigo chamado Paulo Daniel Spoiler hoje professor e pesquisador que há tempos não vejo, publicado no blog Histórias do Vale do Caí do jornalista e proprietário do jornal Fato Novo, Renato Klein que narram detalhes do ocorrido. Bem a eles credito o texto a seguir que simplesmente copiei e colei e com algumas fotos que busquei na net e no próprio blog do Renato e quero agradecer pela oportunidade de conhecer nosso passado. Obrigado!
                                             Integralistas x Guarda Municipal
Professor de história e pesquisador, Paulo Daniel Spolier é caiense e interessado pela cultura da sua terra. Ele estudou o episódio do conflito armado ocorrido no centro do Caí em 1935 e fez um belo relato deste trágico evento:
"No Brasil, capitaneado desde 1930 por Getúlio Vargas, as tendências mundiais extremistas não demoraram a aparecer. Em 1922 era fundado o PCB (Partido Comunista Brasileiro), apenas cinco anos após a Revolução Russa. Em 1932, logo apos a Revolução Constitucionalista, um grupo de intelectuais entre os quais se destacavam Plínio Salgado (O Chefe Integralista) e Gustavo Barroso (ideólogo anti-semita), criaram a Ação Integralista Brasileira (AIB), definida como um movimento que apregoava o nacionalismo, assentados no lema “Pátria, Deus e Família” como elemento unificador nacional, tendo como símbolo a letra grega Sigma (Ó) e a saudação em tupi “Anauê!” que significaria "você é meu irmão" com o braço esticado e mão espalmada.
Com militantes organizados em moldes paramilitares, possuindo, inclusive, fardamento próprio, sendo por isso conhecido como os “camisas verdes” – lembremos aqui que esse tipo de organização demonstra, simbolicamente, é fato, uma inspiração nos movimentos nazi-fascistas europeus: na Itália, os seguidores de Mussolini eram os temidos “camisas negras” – os integralista chegaram a possuir no auge do movimento (fins de 1937) de 100 a 200 mil filiados (FAUSTO, 2000). O integralismo tinha como inimigos declarados os capitalistas internacionais e os comunistas, contando com apoio de setores da Igreja Católica e outros segmentos conservadores da sociedade.
O integralismo teve uma aceitação fervorosa entre as colônias de descendentes de imigrantes europeus no sul do país. Surgia como uma agremiação política e ideológica que, além de seguir o modelo europeu, era tolerada pelo regime varguista (o que não acontecia com os comunistas), já que o próprio Getúlio nutria simpatias por certos preceitos do nazi-fascismo. Além disto, o integralismo era, sobretudo, uma forma de estes indivíduos serem aceitos como brasileiros natos e assim poderem participar de alguma forma do cenário político.
No Vale do Caí não foi diferente. Segundo Hélgio Trindade (1974), em 1936 já havia núcleos integralistas nas localidades de Salvador do Sul e Arroio Canoas (hoje no município de Barão). Em 1937 foi oficializado o núcleo de São Sebastião do Caí.
Porém, a Ação Integralista Brasileira já possuía membros em São Sebastião do Caí há, pelo menos, dois anos antes da criação do núcleo na cidade.
O ano de 1935 foi um ano de grandes agitações na cidade de São Sebastião do Caí. A frente do governo da municipalidade estava, desde 1932, o Sr. Athos de Moraes Fortes, nomeado intendente pelo então Presidente do Estado, General Flores da Cunha.
No dia 25 de fevereiro, domingo, organizada por grupos que provinham de São Leopoldo, Novo Hamburgo e Caxias do Sul, aconteceram na cidade uma parada da Ação Integralista Brasileira, com discursos e um desfile com marcha dos “camisas verdes” pelas principais ruas da cidade."
O saldo desta passeata será sangrento: três mortos e dez feridos.
Em matéria, “furo” de reportagem da época, o Diário de Notícias de 26 de fevereiro de 1935 narra os acontecimentos fatídicos que iniciaram um ano particularmente violento, em matéria feita in loco por seus repórteres, algo inusitado para a época, devido às dificuldades de comunicação então existentes.
Segundo a matéria do jornal, os integralistas iniciaram suas movimentações na parte da manhã, desfilando pela cidade e depois se concentrando na Praça João Pessoa (hoje Praça Cônego Edvino Puhl), no centro da vila. De acordo com o depoimento do então prefeito em exercício, Aluísio de Moraes Fortes (irmão de Athos, o qual estava em Torres desde o dia 23, como consta informe na coluna social do Diário de Notícias do dia 24, informação confirmada pelo próprio Athos em telegrama a Flores da Cunha), após encerrar as atividades previstas, os integralistas espalharam-se pelas ruas centrais, soltando impropérios aos populares. Conta Aluízio:
— Como era natural, a atitude dos ‘camisas verdes’ provocou logo um sentimento de revolta entre os populares, alguns dos quais mostravam-se verdadeiramente indignados. Pouco depois das duas da tarde, palestrava com dois integralistas graduados, procurando fazer-lhes ver que a atitude de seus subordinados estava revoltando os populares, vi que junto a um dos caminhões onde embarcavam os integralistas se iniciara o conflito (Diário de Notícias, 26/02/1935, p. 05).
Pedro Lino dos Santos, habitante da cidade e ex-guarda municipal, que ocupava o posto de motorista da prefeitura, discutia com um integralista, sendo seguro por um guarda municipal conhecido como “Marinho”, na verdade Valdemar Fernandes Reis. Recuando cerca de quatro passos, o integralista (não identificado) saca um revólver da cinta e dispara um tiro que atinge a boca de Marinho, matando-o na hora.
Segue-se, então, cerrado tiroteio, que só irá ter fim com a intervenção do tenente Valdomiro Veledo de Albuquerque, delegado da Junta de Alistamento Militar e Comandante do Tiro de Guerra local, que, junto com alguns praças do Tiro, consegue controlar a situação. “O tenente Veledo conta, ainda, que depois de ter rendido os integralistas, estes dispararam em correria, sendo seguidos pelos guardas municipais, que atiravam à queima-roupa nestes.”
"Após a chegada de reforços oriundos do 8° Batalhão de Caçadores de São Leopoldo, finalmente a ordem foi restabelecida. O inventário do conflito entre os integralistas foi de um morto (José Luís Schroeder, de São Leopoldo, filho de Jacob Schroeder Junior, proprietário do Hotel Rio Branco), além de outros sete “camisas verdes” feridos: César Mondim (bala no abdômen), Vicente Canalli filho (ferido no joelho), Benjamin Custódio de Oliveira (ferido por coronhada na cabeça), Arlindo Lehen (coronhada na cabeça), Frederico Damian (ferido à bala no pé e com contusões por pontapés pelo corpo), Arlindo Leger (coronhada na cabeça) e Efrain Wagner (bala na cabeça). (Diário de Notícias, 26/02/1935, p. 05)
Entre os guardas municipais, o saldo foi de dois mortos: Valdemar Fernandes do Reis (“Marinho”) e João Pedro Leite, ambos mortos a tiro; e dois feridos: Urbano Keller (bala no pulmão), Belarmino Lucas (bala na perna). Há ainda um outro ferido, Nelson Schemes, baleado no peito quando tentava socorrer o Sr. Frederico Damian, de 67 anos.
Wolfran Metzler, liderança integralista de Novo Hamburgo, que mais tarde viria a ser deputado estadual pelo Partido de Representação Popular (PRP, herdeiro da legenda da AIB), contou à reportagem que José Luis Schroeder foi morto com um tiro no ouvido quando tentava se refugiar em uma padaria numa das ruas adjacentes à praça (local onde hoje fica a agência do Banco Bradesco de São Sebastião do Caí, na Rua Treze de Maio, quase esquina com a Avenida Egydio Michaelsen).
Procurado pela redação do Diário de Notícias, o chefe integralista do Rio Grande do Sul, Sr. Dario Bittencourt apresentou aos entrevistadores uma edição do jornal “O Integralista” de 10 de fevereiro de 1935, isto é, quinze dias antes do ocorrido, que acusa o governo municipal de São Sebastião do Caí sobre o tratamento que vinha dando aos integralistas daquela cidade. Transcrevo a última parte do artigo de “O Integralista”, citado no Diário de Notícias:
O prefeito municipal de São Sebastião do Caí é o bacharel Athos de Moraes Fortes. A ele é confiada à ordem e a liberdade que os camisas verdes do município podem exigir em face da Constituição. Por isso, os camisas verdes do Rio Grande do Sul responsabilizam o Sr. Athos de Moraes Fortes por qualquer violência que se pratique no município que dirige (Diário de Notícias, 26/02/1935, p. 16).
Em telegrama endereçado ao governador do Estado, o prefeito Athos de Moraes Fortes narra os acontecimentos, mesmo assumindo que não se encontrava na cidade naquele dia, afirmando que “quase todos os integralistas compareceram armados, trazendo copiosa munição e pelo número de mortos e feridos de nossa parte, V. Exa. poderá avaliar os intuitos subversivos desses pretendidos regeneradores” (Diário de Notícias, 26/02/1935, p. 16)."
Paulo Daniel Spolier conclui assim a sua análise do episódio:
O jornal oficial “A Federação”, porta-voz do governo estadual, em seu editorial, afirma que “os camisas verdes, entre nós, acabam de lavrar sua sentença de morte”, reproduzindo o dito telegrama do prefeito de Caí ao governador do Estado, que, por sinal, foi editado pela redação do jornal, excluindo a parte em que Athos de Moraes Fortes conta que estava em Torres na hora do ocorrido (A Federação, 27/02/1935, capa).
A imprensa de língua alemã do Rio Grande do Sul, segundo pesquisa de René Ernani Gertz dividiu-se entre críticos abertos da ação dos integralistas e aqueles que se mantiveram “isentos” dos fatos, não sendo, em última análise, desfavoráveis aos camisas verdes. O Deutches Volksblatt faz parte do segundo grupo, referindo-se ao “terrível tiroteio”, reproduzindo a posição do prefeito local e acentuando que, naturalmente, os integralistas defendem ponto de vista oposto. O Kolonie, de Santa Cruz do Sul, faz parte do primeiro grupo, questionando o fato de que é incompreensível ir a um encontro de propaganda armado, além de colocar como uma das causas dos atritos a homossexualidade de um dos líderes da AIB de São Sebastião do Caí (GERTZ, 1980, p. 224 e 225).
O que se pode depreender comparando as diversas versões do ocorrido é que o conflito que houve na tarde do domingo, 25 de fevereiro de 1935, na sede do município de São Sebastião do Caí, entre integralistas e integrantes da guarda municipal, foi o desfecho de um processo de atritos sequenciais que já vinham sendo noticiados há alguns dias (vide o texto do jornal integralista) entre o governo municipal e os líderes da AIB na cidade. O fato de haverem os integralistas se dirigido ao dito “comício” armados revela uma intencionalidade de causar, no mínimo, constrangimento aos que lhes observavam pelas ruas da cidade. A atitude de Pedro Lino dos Santos, funcionário da prefeitura, discutindo com os “camisas verdes” (precisando ser seguro pelo guarda “Marinho”), mostra igualmente o grau de estremecimento que se encontravam as relações entre o setor público municipal, influenciado pelos seus dirigentes, e a Ação Integralista Brasileira. Havia, como comprova a matéria do periódico integralista, uma animosidade explícita entre os dois grupos que irão se enfrentar em praça pública. O desfecho não poderia ser diferente, vide o caráter militarizado e belicista dos integralistas e o perfil “coronelista” dos dirigentes da cidade.
Não é jiu jitsu mas é guerra.OSS




O confronto entre integralistas e a guarda municipal caiense segundo o Diário de Notícias

"As últimas horas da tarde de domingo começou a circular no centro da cidade a notícia, que aos poucos se foi espalhando, de que graves acontecimentos se tinham desenrolado em São Sebastião do Caí. Essas notícias, exageradas como soem ser sempre em tais casos as primeiras informações, intranquilisavam que, num grande conflito ocorrido naquela vila, entre elementos da polícia local e integralistas que lá se tinham reunido, idos desta capital, de Caxias, de São Leopoldo, de Novo Hamburgo e de Caí, haviam tombado cerca de quarenta pessoas.
Esses boatos cresceram de vulto quando se soube, já então com fundamento, que o Dr. Valentim Aragon, sub-chefe de polícia da primeira região, havia seguido à tardinha para aquela localidade, acompanhado por um forte contrigente da Brigada Militar do Estado. Pouco depois comentava-se, também, que havia seguido para São Sebastião uma companhia de Oitavo Batalhão de Caçadores, com sede em São Leopoldo.
A reportagem do Diário de Notícias, em virtude dos boatos e em face da dificuldade de colher em um domingo informações oficiais, tratou de por-se imediatamente em campo para averiguar o que de fato houvera. E depois de se certificar de partida precipitada do sub-chefe de polícia para São Sebastião do Caí, resolveu seguir imediatamente, de automóvel, com redatores e fotógrafo, para aquele município.
Poucos minutos passavam das 19 horas e corria já a nossa caravana pela faixa de cimento da estrada Porto Alegre - São Leopoldo, na sua missão jornalística de visitar o próprio teatro dos acontecimentos afim de transmitir informações verdadeiras aos leitores do Diário de Notícias.
Em São Leopoldo, onde chegamos depois de uma ótima viagem, notava-se desde logo que algo de anormal transformara a vida calma da sua população. Patrulhas do Exército percorriam as ruas e a quietude da cidade, sem a alegria costumeira dos domingos assinalava à observação do repórter um início de confirmação dos boatos correntes na capital.
Atravessamos várias ruas e fomos parar o nosso carro em frente ao Hotel Rio Branco, situado na praça que fica aos fundos da igreja matriz da vizinha cidade, onde se aglomeravam inúmeros populares, formando grupos de três e quatro pessoas.
Esses grupos, visivelmente, comentavam com reservas comuns em tais ocasiões, algum acontecimento importante.
Aproximamo-nos de um dos grupos e dando a conhecer a nossa qualidade de jornalistas, solicitamos informes sobre o que se passava. Diversas pessoas, imediatamente, entraram a dar-nos esclarecimentos.
Comentavam-se, como supuzéramos, os acontecimentos de São Sebastião do Caí. E, como acontecia em Porto Alegre, os boatos dominavam de modo a nada, ainda, nos permitir apurar ao certo. Adiantaram porém os nossos informantes que a única coisa indiscutível que se sabia em São Leopoldo é que havia sido morto, à bala, o filho do sr. João Schroeder Júnior, proprietário do Hotel Rio Branco, Sr. José Luiz Schroeder que seguira pela manhã, para São Sebastião num ônibus conduzindo uma parte da milícia integralista dali.
A família do morto esperava, naquele momento, a chegada do cadáver, que já devia vir em caminho, pois seu pai e diversos amigos tinham ido buscá-lo em São Sebastião.
Depois de havermos obtido, com a família do assassinado, uma sua fotografia, tirada recentemente, dispuzemo-nos a prosseguir na viagem, afim de chegarmos ao teatro dos acontecimentos o mais cedo possível, com o objetivo de ouvir os depoimentos das pessoas envolvidas nos mesmos.
Após uma viagem relativamente boa, através de uma estrada péssima, chegamos à vila de São Sebastião do Caí.
Logo na entrada da vila, deparamos com o velório de uma das vítimas da sangrenta ocorrência.
Era uma das praças da polícia municipal, que fôra morta no início do conflito.
Se o ambiente em São Leopoldo já impressionava pelo seu aspecto invulgar, o da vila de São Sebastião do Caí era deveras impressionante pelo silêncio e desolamento não obstante os numerosos grupos, que pelas esquinas palestravam em voz baixa.
Como soubéssemos que o Dr. Valentin Aragon havia chegado na vila poucos momentos antes, dirigimo-nos, imediatamente para a Prefeitura Municipal, onde está sediada a delegacia de polícia da localidade.
Logo que dobramos a esquina da praça João Pessoa, teatro dos acontecimentos da tarde, em direção à Prefeitura Municipal da vila, despertou a nossa atenção um grande ajuntamento de curiosos, que se premia em frente àquela repartição, espiando pelas janelas e comentando os acontecimentos da tarde.
Num dos portões da prefeitura achavam-se de guarda soldados do Oitavo Batalhão de Caçadores do Exército, com sede na cidade de São Leopoldo, os quais de baioneta calada, impediam a entrada de qualquer pessoa na parte mais alta do edifício, em cujas janelas viam-se dezenas de “camisas verdes” detidos e observando o movimento externo.
Saltando à frente da prefeitura, dirigimo-nos à sala onde estava funcionando a delegacia de polícia.
Alegando a nossa qualidade de jornalistas, penetramos ali. O Dr, Valetim Aragon, sub-chefe de primeira região, acompanhado de seu amanuense, sr. Armando Ferreira Filho e do investigador Julio Inácio Feijó, iniciara naquele momento o inquérito, para exclarecer as ocorrências.
A seu lado encontravam-se os srs. Reinaldo Veeck, sub-prefeito de São Sebastião do Caí, Irineu Guberto, delegado de polícia, Aluízio Fortes, oficial do Registro de Imóveis e sub-prefeito do terceiro distrito, tenente Valdomiro Veleda de Albuquerque e o Sub-delegado sr. José Antônio Pinto Ribas.
No momento em que entrávamos na sala, o Dr. Valentim Aragon ouvia as declarações do Dr. Jobim de Oliveira, médico que atendera aos feridos no conflito daquela tarde.
Explicava aquele cirurgião o estado dos feridos e fazia uma ampla exposição de sua atuação, notificando a natureza dos ferimentos.
Assim, ficamos sabendo que havia onze feridos, dois dos quais estavam em estado bastante grave. Um apresentava ferimentos nos dois braços e nas duas pernas, com fratura dos dois antebraços e de uma das pernas. O outro, um ancião de 74 anos de idade, recebera um ferimento num dos braços e outro no pé direito, tendo ainda recebido numerosas escoriações e contusões pelo corpo.
Os demais feridos, entre os quais havia dois menores alheios aos acontecimentos, passavam relativamente bem, já tendo sido operados, para a extração dos projetis.
Enquanto as autoridades trabalhavam resolvemos que nos cercavam, algumas das quais teciam comentários sobre, o início do conflito.
Assim dirigimo-nos ao sr. Aluizio Fortes, sub-prefeito em exercício no cargo de prefeito, o qual no momento, narrava a sua intervenção na luta da tarde.
Pondo-se logo à nossa disposição, o sr. Fortes entrou a narrar como havia tido início o verdadeiro combate daquele dia:
Principiou, dizendo que os integralistas, que haviam comparecido à vila em vários auto-ônibus, após haverem se reunido e desfilado pelas principais ruas, dispersaram-se, entrando a perambular pela vila em atitude de provocação. E acrescentou:
- “Como era natural, a atitude dos “camisas-verdes” provocou logo um sentimento de revolta entre populares, alguns dos quais mostravam-se verdadeiramente indignados. Pouco depois das duas horas, palestrava eu com alguns integralistas graduados, procurando fazer-lhes ver que a atitude de seus subordinados estava revoltando os populares, vi que junto a um dos caminhões, onde embarcavam os integralistas se iniciara o conflito.
Pedro dos Santos, um habitante de São Sebastião do Caí, segurou pelo guarda municipal Mario dos Reis, vulgo “Marinho”, discutia com um “camisa verde”. Este, recuando quatro passos, sacou do cinto um revólver, detonando um tiro contra os dois homens, atingindo “Marinho” na boca.
O soldado rolou por terra agonizante, entabolando-se então forte tiroteio, tendo a vítima, ainda de revólver na mão, não tido tempo de usar a arma.
O tiroteiro generalizou-se, caindo, então, outras pessoas feridas”.
Segundo diz o sr. Aluizio Fortes, o integralista que primeiro atirou é um rapaz moreno, de mediana estatura, que por ele não mais foi visto.
Acrescentou que durante o tiroteio, que então se formou, foram disparados muitos tiros das janelas do Hotel Adams, onde estavam hospedados os integralistas, tendo um dos tiros que dali foram disparados, atingindo o sr. Frederico Guilherme Damian, que se achava próximo ao ônibus.
Limitamo-nos aqui, como na ediçãoda semana passada a transcrever a matéria publicada pelo jornal Diário de Notícias que mandou seus repórteres para o Caí no dia seguinte ao do conflito e publicou completa reportagem na edição do dia 26 de fevereiro daquele ano.
Nesta parte que a seguir transcrevemos, o repórter transcreve o relato de alguns integralistas com relação ao conflito. Relatos este que se contrapoem ao do prefeito substituto da ocasião: Aloísio Fortes.
Não devem entender os leitores que esta reportagem seja a última palavra sobre este caso. Trata-se antes de um depoimento vivo e importante, pois vem da época em que os fatos aconteceram, mas talvez muito mais ainda, tenha de ser dito sobre este assunto que muitos consideram um tabu, mas que, passados cinquenta anos do desenrolar dos fatos está mais do que na hora de ser examinado  com isenção de ódios para que dele possamos tirar algum ensinamento.
Na delegacia de polícia encontrava-se, também o Dr. Wolfran Metzler, chefe integralista de Novo Hamburgo, o qual não tomara parte no conflito a socorrer os feridos.
Procuramos ouvir suas declarações sobre o ocorrido, tendo nos atendido imediatamente.
Disse-nos o Dr. Metzen que dois dos auto-ônibus que haviam transportado milicianos integralistas de Caxias para São Sebastião e o outro de Bento Gonçalves já haviam zarpado para aquelas localidades, quando ele e seu companheiros de Novo Hamburgo fizeram o mesmo.
No momento, porém, que se afastavam da vila ouviram cerrada fuzilaria, que partia do centro da localidade, motivo pelo qual resolveram voltar, a fim de ver o que se passava.
Quando chegavam uma quadra antes da praça João Pessoa, viram vários integralistas correndo na direção em que eles iam seguidos de diversos policiais e pessoas à paisana.
Saltando do veículo tentaram eles saber do que se tratava, quando viram o jovem José Luiz Shroeder, que corria junto à parede, parar em frente à porta de uma padaria existente na primeira esquina aquém da praça, começando a bater ali desesperadamente.
Nesse momento - continuou o Dr. Metzler - aproximou-se correndo um policial e, cercando-se de Shroeder, encostou-lhe o cano do revólver junto ao ouvido esquerdo dando ao gatilho.
O rapaz caiu pesadamente  ao solo, enquanto o seu perseguidor detonava mais uma vez sua arma , deitando a correr em seguida, por uma rua transversal.
Depois de verificar que Shroeder não mais existia, mandou seus companheiros o esperassem numa residência particular das proximidades, dirigindo-se para a praça, afim de socorrer os feridos que ali havia.
Foi, porém, preso em caminho e transportado para a delegacia de polícia.
Tendo encontrado na delegacia o jovem que se retorcia de dores, com um tiro no ventre, dirigiu-se ao sargento que comandava os policiais que mais tarde soube chamar-se Ermes Lucas de Melo, pedindo-lhespara permitir que recolhesse o ferido ao hospital, pois poderia advir alguma infecçãona ferida, caso não fosse feito curativos de urgência na vítima.
O policial porém, longe de atender à solicitação, entrou a deblatear, dizendo que todos podiam muito bem morrer e que não o incomodassem muito porque do contrário ele os mataria um por um para vingar a morte dos seus soldados.
Momentos depois, todavia, chegou à delegacia o tenente Veleda, que mandou trasportar, imediatamente o ferido para o hospital, dando permissão ao Dr. Metzler para auxiliar os outros médicos nos trabalhos com os feridos.
Pela manhã de ontem, soubemos que os comerciantes de São Sebastião do Caí tinham resolvido não abrir seus estabelecimentos durante o dia de ontem. Essa notícia nos foi dada quando íamos visitar os feridos no Hospital da localidade.
Com autorização do Dr. Jobim de Oliveira, que ainda trabalha ativamente, auxiliado pelo Sr. Bruno Hoegraefe, passamos a visitar os feridos ali recolhidos.
Em diversas salas do hospital encontramos as seguintes pessoas:
Efrain Wagner, de 30 anos de idade, casado, residente em Porto Alegre, onde trabalha no Banco Inglês, apresentando um ferimento por projetil de arma de fogo, com orifício de entrada na altura do osso ilíaco e saída na região glútea, além, de contusões na cabeça, produzidas por coronhaços de revólver. O ferimento pertencente à milícia integralista de Porto Alegre.
Nelson Schemes, de 17 anos, solteiro, residente em São Sebastião do Caí, que apresentava um ferimento por bala no peito. Esse menor, que se achava nas proximidades da praça, vendo a cair ferido o ancião Frederico Guilherme Danian, correu a socorrê-lo, recebendo, o tiro que o prostrou.
João Francisco Maciel Fernandes, de 26 anos de idade, solteiro, pertencente à milícia integralista de Porto Alegre, um dos que se acha em estado mais grave. Recebeu ele quatro ferimentos por projétil de arma de fogo, três dos quais fraturaram-lhe os dois punhos e uma das pernas, tendo o outro atravessado a outra perna. Além desses ferimentos apresenta ele diversas contusões e pisaduras.
Armindo Lehn, de 26 anos de idade, da milícia integralista de Novo Hamburgo, apresenta um ferimento contuso na cabeça, produzido por coronha de revólver.
Vicente Canalli Filho, de 23 anos, solteiro, da milícia integralista de Caxias, com entrada na parte posterior do joelho esquerdo e saída na parte anterior da articulação do mesmo lado.
Frederico Guilherme Damian, de 73 anos de idade, casado, da milícia integralista de São Sebastião do Caí, que apresenta um ferimento por bala na coxa direita, além de várias escoriações e contusões pelo tórax e membros.
Benjamim Custódio de Oliveira, de 28 anos, casado, da milícia integralista de Caxias. Sofreu dois golpes de coronha de revólver ma cabeça.
Belarmino Lucas, de 40 anos, praça da polícia municipal de São Sebastião do Caí, com ferimento por bala na perna direita.
Cezar Mondim, de 26 anos, casado, da milícia integralista desta capital, com ferimento por projétil de arma de fogo, com entrada na parte superior do peito, indo se alojar nas costas, de onde foi extraído.
Depois de visitarmos os feridos no hospital procuramos o outro ferido, o soldade da polícia Urbano Keller, em sua residência, à rua General Câmara. Apresentava ele um ferimento por projétil de arma de fogo na parte superior do peito a esquerda, com saída nas costas.
Durante nossa visita ao Hospital de Caridade palestramos longamente com os feridos ali recolhidos.
O primeiro por nós ouvido foi o Sr. Efrain Wagner, caixa do Banco Inglês desta capital, o qual nos disse que não assistira o início do conflito, pois se retirara do local onde o mesmo se originou, quando foi atingido por um dos primeiros tiros disparados.
Tinha ido ele aquele local, acompanhado pelo Sr. Pedro Marçam Veimann, quando viu que os ânimos se estavam exaltando.
Afim de evitar um conflito, dispunha-se ele a embarcar num ônibus que se achava parado numa das esquinas fronteiras à praça, quando foi ferido, caindo por terra, aonde foi espancado por um policial, que lhe desferiu vários golpes com a coronha de seu revólver.
O depoimento de Cezar Mondim é quase idêntico ao de Efrain Wagner.
Acrescenta ele apenas, que foi ferido, quando procurava levantar do solo o ancião Frederico Guilherme Damian, que a todo o instante sofria pisotões e golpes de coronha.
Como não pudesse permanecer no local, pois “havia muita bala” dirigiu-se para os lados da estrada de São Leopoldo, onde encontrou-se com Marçal Veimann, que o socorreu.
Disse que esteve muito tempo na delegacia de polícia, atirado no chão, e acrescentou: “Se não fosse o tenente Veleda não sei se estaria aqui.”
O soldado Urbano Keler, da polícia municipal, conta que não viu quem começou a briga. Viu cair também, pois os integralistas estavam quase todos armados e faziam fogo sem cessar.
Foi atingido quando perseguia um grupo que se dirigia para o hotel Adams."
Reprodução de matérias publicadas pelo jornal Diário de Notícias nos dois dias posteriores ao episódio